O fim da escala 6×1 representa uma mudança importante nas relações de trabalho no Brasil e traz novos desafios para a administração de condomínios. Com equipes responsáveis por portaria, limpeza, zeladoria e manutenção, os edifícios precisarão adaptar suas rotinas para conciliar a nova jornada de trabalho com a continuidade dos serviços.
A mudança também levanta uma questão importante para síndicos e moradores: como adequar as equipes sem comprometer a qualidade dos serviços e o equilíbrio financeiro do condomínio?
O tema foi abordado pelo SíndicoNet, que destaca os possíveis impactos operacionais, trabalhistas e financeiros da medida.
O que é o fim da escala 6×1?
A escala 6×1 é um modelo de organização do trabalho em que o profissional trabalha seis dias e tem um dia de descanso. Esse formato é utilizado em diferentes atividades, inclusive em funções comuns nos condomínios residenciais e comerciais.
Em 16 de outubro de 2026, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nº 141/2026, que prevê dois dias de repouso semanal remunerado e a redução gradual da jornada máxima de trabalho, sem redução salarial.
De acordo com as novas regras, a transição prevê:
- A partir de 16 de dezembro de 2026: jornada máxima de 42 horas semanais e dois dias de descanso remunerado por semana.
- A partir de 16 de dezembro de 2027: jornada máxima de 40 horas semanais, limitada a oito horas diárias.
A emenda também admite, excepcionalmente, regimes de compensação previstos em acordos ou convenções coletivas, respeitadas as condições estabelecidas no texto constitucional.
As novas regras exigem atenção dos empregadores e o acompanhamento das disposições aplicáveis a cada categoria profissional.
Fonte: Senado Federal — Emenda Constitucional nº 141/2026.
Por que os condomínios serão diretamente afetados?
Diferentemente de muitas empresas, os condomínios precisam manter determinados serviços em funcionamento durante toda a semana. A portaria presencial 24 horas é um exemplo: o posto precisa estar coberto durante 168 horas semanais, independentemente das folgas dos funcionários.
Com a redução da jornada e a ampliação do descanso semanal, será necessário rever as escalas de trabalho para garantir a cobertura dos turnos.
O desafio pode ser maior em condomínios com equipes pequenas, nos quais um número reduzido de profissionais responde por várias atividades.
Além da portaria, outras funções podem exigir ajustes, como:
- Limpeza das áreas comuns;
- Zeladoria e manutenção predial;
- Controle de acesso e segurança;
- Atendimento aos moradores e prestadores de serviços.
Segundo a reportagem do SíndicoNet, estimativas de entidades do setor indicam que alguns condomínios poderão precisar ampliar suas equipes ou contratar profissionais para cobrir folgas. A necessidade, entretanto, dependerá da estrutura de cada empreendimento e das escalas atualmente adotadas.
A taxa condominial pode aumentar?
O possível impacto financeiro é uma das principais preocupações de síndicos e condôminos.
A folha de pagamento representa uma parcela relevante das despesas de muitos condomínios. Quando a adaptação exige novas contratações, pagamento de horas extras ou reorganização de contratos de serviços terceirizados, os custos podem aumentar.
Em março de 2026, a Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC) alertou para a possibilidade de aumento de até 15% nos custos condominiais em determinados cenários.
É importante destacar que esse percentual é uma estimativa setorial, e não uma previsão de reajuste aplicável a todos os condomínios. O impacto real dependerá de fatores como o número de funcionários, a jornada atual, a necessidade de cobertura dos postos e a participação da mão de obra no orçamento.
Fontes: AABIC — Fim da escala 6×1 pode elevar custos de condomínios em até 15% e Exame — Portaria 24h vira o maior desafio dos condomínios com o fim da escala 6×1.
Quais alternativas os condomínios podem avaliar?
A adaptação não depende necessariamente apenas da contratação de mais funcionários. Antes de tomar decisões, a administração pode analisar diferentes possibilidades para identificar a solução mais adequada à realidade do empreendimento.
1. Reorganização das escalas
Revisar os turnos e a distribuição das jornadas pode ajudar a identificar períodos de sobreposição, necessidades de cobertura e oportunidades para utilizar melhor a equipe existente, sempre respeitando os limites legais e os instrumentos coletivos aplicáveis.
2. Contratação de folguistas
Profissionais destinados à cobertura de folgas, férias e ausências podem ajudar a manter os serviços essenciais sem sobrecarregar os demais funcionários.
3. Avaliação da terceirização
Em algumas situações, contratar uma empresa especializada em portaria, limpeza ou manutenção pode ser uma alternativa. A decisão deve considerar o custo total, a qualidade do serviço, as obrigações contratuais e as responsabilidades trabalhistas envolvidas.
4. Revisão da rotina de serviços
A administração pode avaliar os horários e a frequência de atividades que não precisam ocorrer continuamente. A limpeza de determinadas áreas, por exemplo, pode ser reorganizada conforme as necessidades do condomínio, sem prejudicar a higiene e a conservação.
5. Tecnologia e controle de acesso
Sistemas de acesso eletrônico, monitoramento remoto e soluções de automação podem complementar as atividades presenciais em determinados empreendimentos. A viabilidade depende das características do edifício, dos requisitos de segurança e das decisões dos responsáveis pela gestão.
Nenhuma dessas alternativas deve ser adotada automaticamente. A escolha precisa considerar as necessidades dos moradores, as características operacionais do condomínio e a legislação trabalhista.
O que síndicos e administradoras devem fazer agora?
Com a aproximação da primeira etapa de implementação, o planejamento é fundamental para evitar decisões emergenciais e despesas não previstas.
Entre as principais providências estão:
- Mapear as jornadas atuais: identificar quais funcionários trabalham em escala 6×1 ou em outros regimes que precisam ser revistos.
- Simular novas escalas: verificar como cobrir os postos e manter os serviços dentro dos limites legais.
- Revisar o orçamento: calcular possíveis impactos na folha de pagamento e nos contratos terceirizados.
- Consultar profissionais especializados: buscar orientação jurídica e trabalhista, além de verificar as convenções coletivas aplicáveis à categoria.
- Preparar o planejamento financeiro: avaliar se será necessário rever a previsão orçamentária e discutir os ajustes com o conselho e os condôminos.
- Comunicar as mudanças: explicar aos moradores as adaptações previstas, os motivos das decisões e os possíveis efeitos sobre os serviços.
A análise deve ser feita com antecedência, considerando que as soluções podem variar de acordo com o porte e o funcionamento de cada condomínio.
O papel da gestão condominial nesse período de adaptação
O fim da escala 6×1 não afeta apenas a organização dos funcionários. A mudança também exige planejamento financeiro, revisão de procedimentos e diálogo entre síndicos, administradoras, trabalhadores e moradores.
Uma gestão organizada pode antecipar custos, avaliar alternativas e reduzir o risco de interrupções nos serviços. Também é importante que as decisões sejam documentadas e que eventuais alterações de contratos, escalas e despesas sigam os procedimentos legais e condominiais aplicáveis.
A tecnologia pode contribuir para tornar a operação mais eficiente, mas não substitui a análise das necessidades de cada edifício nem o cumprimento das obrigações trabalhistas.
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