A expectativa de uma queda mais significativa nos juros do financiamento imobiliário começa a perder força no Brasil. Mesmo com o início do ciclo de redução da Taxa Selic em 2026, o crédito habitacional para imóveis fora do Minha Casa Minha Vida deve continuar caro ao longo de 2027.

Segundo avaliação da Abecip, os juros do financiamento imobiliário devem permanecer próximos do teto de 12% ao ano para imóveis financiados pelo SBPE — modalidade utilizada principalmente em imóveis acima de R$ 600 mil.


Selic ainda elevada pressiona o crédito imobiliário

As projeções do mercado indicam que a Taxa Selic deve encerrar 2026 em torno de 13,25% ao ano, mantendo o custo do dinheiro elevado no país.

Mesmo com cortes recentes promovidos pelo Copom, os juros continuam em um patamar considerado alto para o financiamento imobiliário tradicional.

Na prática, isso significa:

  • parcelas mais altas;
  • menor poder de compra;
  • necessidade de entradas maiores;
  • redução do valor financiado pelos bancos.

O impacto é mais forte nos financiamentos realizados com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), utilizado em imóveis de médio e alto padrão.


Por que os juros imobiliários não caem rapidamente?

Ao contrário do que muitos imaginam, o financiamento imobiliário não acompanha imediatamente os movimentos da Selic.

Isso acontece porque os bancos dependem de fontes de recursos específicas para financiar imóveis, principalmente:

  • poupança;
  • LCIs (Letras de Crédito Imobiliário);
  • CRIs e outros instrumentos financeiros.

Com os juros elevados, a poupança perdeu atratividade e continua registrando saída líquida de recursos. Entre janeiro e abril de 2026, o saldo negativo da poupança voltada ao crédito imobiliário chegou a R$ 31,5 bilhões.

Para compensar essa perda, os bancos passaram a utilizar um “blend” entre diferentes fontes de captação, incluindo LCIs — que possuem custo maior do que a poupança tradicional. Isso mantém os juros do financiamento próximos de 12% ao ano.


Mercado imobiliário segue resiliente em 2026

Apesar do cenário de crédito caro, o mercado imobiliário ainda apresenta desempenho considerado positivo em diversos segmentos.

Segundo a Abecip:

  • o Minha Casa Minha Vida continua aquecido;
  • financiamentos com FGTS seguem em crescimento;
  • construtoras especializadas em habitação econômica mantêm ritmo forte de produção.

A entidade projeta crescimento de:

  • 15% nas operações via SBPE;
  • 35% nos financiamentos com recursos do FGTS em 2026.

Isso mostra que, mesmo com juros elevados, a demanda por imóveis continua sustentada em parte do mercado.


Imóveis acima de R$ 600 mil devem sentir maior impacto

O cenário mais desafiador aparece justamente nos imóveis financiados fora do programa habitacional federal.

Segundo a Abecip, famílias de renda média e alta podem enfrentar:

  • exigência de maior entrada;
  • redução do percentual financiado;
  • crédito mais seletivo.

Embora os bancos possam financiar até 90% do valor do imóvel em algumas modalidades, o percentual mais comum atualmente gira entre 60% e 70%.

Na prática, compradores precisarão de maior capacidade financeira para fechar negócio.


Alta dos custos também preocupa o setor

Além dos juros elevados, o mercado acompanha o aumento dos custos da construção civil.

A elevação do INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) já começa a impactar lançamentos e margens das incorporadoras.

Em São Paulo, por exemplo, os lançamentos imobiliários recuaram 5% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior.

Isso reforça um cenário de maior cautela no setor imobiliário para os próximos anos.


O que muda para quem pretende comprar imóvel?

O momento exige mais planejamento financeiro do comprador.

Entre os principais pontos de atenção estão:

  • valor da entrada;
  • capacidade de financiamento;
  • custo efetivo total do contrato;
  • comparação entre bancos e modalidades.

Mesmo pequenas diferenças nas taxas de juros podem representar dezenas de milhares de reais ao longo de um financiamento de 20 ou 30 anos.

Além disso, especialistas destacam que o comportamento dos juros longos — e não apenas da Selic — é determinante para o crédito imobiliário.


Crédito imobiliário deve continuar seletivo em 2027

A expectativa atual do mercado é de melhora gradual, mas sem retorno ao cenário de juros baixos observado entre 2020 e 2021.

O setor imobiliário entra em um período marcado por:

  • crédito mais caro;
  • maior seletividade bancária;
  • necessidade de maior planejamento financeiro;
  • fortalecimento do segmento econômico e do Minha Casa Minha Vida.

Enquanto isso, compradores de imóveis de maior valor devem continuar enfrentando juros elevados ao longo de 2027.